O que há em mim é sobretudo cansaço
O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...
Álvaro de Campos




4 comentários:
Longe vão as minhas tardes passadas a ler e a ouvir música. Mas elas hão-de voltar em breve. E eu vou deitar-me de barriga para o ar, ao sol, com um livro na mão, e aproveitar ao segundo todo o ócio que não tive durante o ano. Mas por enquanto, ainda são só dias maus e com cansaço. :)
Sábias palavras, são aquelas da Carolina ....
Também eu anseio ver-te sorrir, enquanto ao pôr-do-Sol, me largas a mão para que possa correr atrás daquilo que nunca agarro...
“ Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.”
-Ricardo Reis
A simples complexidade deste poema é simplesmente genial. E nada disto é teórico, nada disto é analítico, é apenas sentido e escrito, na mais humilde tentativa de exprimir aquilo que se sente, no mais puro dos sentimentos. Simplesmente, vida.
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